É frequentemente um desejo nosso fazer algo ser verdade só para vermos clara e distintamente o falso como verdadeiro, o imaginado como real.

O desejo de que algo seja verdadeiro, no lugar do desejo pelo que é verdadeiro em si, pode muito bem ser a raiz mesma de todo o mal.

Benjamin Wiker em “10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram em Nada”

Qual é o limite dos estragos que uma idéia ruim pode causar quando embrulhada em argumentos aparentemente bons e lógica convincente? Como é impossível conhecer o efeito final de distorções influentes na corrente de pensamentos da humanidade, a melhor forma de fazer esta investigação é, partindo dum estado calamitoso definido, ir às suas origens. Foi buscando o nascimento de grandes desvios ideológicos que causaram estragos ao longo dos últimos tempos que Benjamin Wiker montou o excelente “10 Livros Que Estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram Em Nada”, lançado no Brasil pela Vide Editorial.

Como Wiker trata de livros, obviamente as idéias encadeadas são aquelas que vieram à luz após o avanço das técnicas de impressão. A evolução tecnológica no período do Renascimento – que para Paul Johnson teve como ponto de partida a publicação de “A Divina Comédia” – permitiu uma maior disseminação das idéias em forma de livros em paralelo ao aumento da parcela de pessoas letradas na Europa. É assim que esta lista tem como ponto de partida “O Príncipe”, de Maquiavel, publicado em 1513.

Quando vi o título do livro cheguei a pensar em como seria possível dar um contexto histórico aos títulos que fazem parte da lista em tão poucas páginas – 227. Porém, o argumento de Wiker é perfeito. Segundo ele “livros ruins apenas estragam o mundo quando são consumidos ferozmente  por aqueles que têm fome de suas mensagens”. Isso não é jamais uma desculpa para que o mal ganhe uma defesa entusiasmada. É por isso que não “podemos desconsiderar suas palavras maliciosas e dizer: “Ele foi apenas fruto de seu tempo”. As idéias contidas nesses livros ajudaram a moldar de forma importante o tempo após sua publicação.

Outro ressalva prévia que se pode fazer ao título do livro seria imaginar que ele defende algum tipo de censura. Wiker deixa bem claro que não faria o menor sentido defender, hoje ou em qualquer época, a proibição desses livros. Suas idéias já vieram à luz e proliferaram. O certo é conhecê-los muito bem e notar tudo o que há de perverso para poder então combater as ideologias que dali partiram.

A investigação tem como ponto de partida o desejo de descobrir  “o que nos permite conhecer as nascentes da correnteza na qual nos submergimos hoje?”.  É assim que passamos na parte inicial (“Estragos Preliminares”) pelo já citado “O Príncipe”; o “Discurso sobre o método”, de René Descartes; Leviatã, de Thomas Hobbes; Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Jean-Jacques Rousseau. Em comum, essas e as obras a seguir demonstram um inegável “desejo em fazer algo ser verdade só para vermos clara e distintamente o falso como verdadeiro, o imaginado como real.

Os principais estragos que dão título ao livro são apresentados a seguir na parte “Dez Grandes Estragos”:

  • Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels;
  • Utilitarismo, de John Stuart Mill;
  • A descendência do homem, de Charles Darwin;
  • Além do bem e do mal, de Friedrich Nietzsche;
  • O Estado e a Revolução, de Vladimir Lênin;
  • O eixo da civilização, de Margaret Sanger;
  • Minha luta, de Adolf Hitler;
  • O futuro de uma ilusão, de Sigmund Freud;
  • Adolescência, sexo e cultura em Samoa, de Margaret Mead;
  • – O relatório Kinsey, de Alfred Kinsey.

Por fim, o autor faz uma menção desonrosa a Betty Friedan e seu A mística feminina.

Cada capítulo tem como introdução um trecho da obra analisada, com exceção do grotesco “O relatório Kinsey” que não pôde ter nenhuma parte copiada no livro por proibição do Instituto Kinsey para Pesquisas em Sexo, Gênero e Reprodução. Por conta disso, diz Wiker, o capítulo teve de ser refeito às vésperas do lançamento para que nenhum trecho fosse impresso – e assim fomos poupados dos detalhes de experimentos sexuais com crianças, por exemplo.

O “10 Livros Que estragaram o Mundo – e Outros Cinco Que Não Ajudaram em Nada” cumpre com louvor o pretendido. Sua análise de obras tão singulares nos permite reconhecer o traço comum aos erros de seus autores. Há sim uma grande distância numérica no estrago causado pelas idéias de Hitler e Lênin e “detalhes” como a linha de raciocínio de Charles Darwin que mais tarde seria usada para práticas eugenistas que também levaram a um racismo científico. Tanto Hitler como Lênin  defendiam muito mais a ação prática do que uma defesa entusiasmada de suas teses, eles verdadeiramente exortavam a uma marcha que acelerasse o paraíso na Terra sem pudores. No caso específico de Darwin, cabe questionar os motivos do autor não ter notado o caminho de suas idéias aplicadas a todos os seres vivos em “A origem das espécies” que foram depois adaptadas para “A descendência do homem”. Como pôde não alertar para a imoralidade que resultaria caso alguém tentasse acelerar o processo de seleção dos mais aptos?

O erro de tantos que nos trouxeram a este reino do relativismo e rebaixamento de valores fundamentais para a nossa civilização pode ser explicado, como faz o autor, na sentença: “o desejo de que algo seja verdadeiro, no lugar do desejo pelo que é verdadeiro em si, pode muito bem ser a raiz mesma de todo o mal”. Muitos dos autores analisados quiseram em suas obras afirmar como normais, corretas ou admiráveis certas atitudes que eles mesmos praticavam. Outros encontraram restrições do meio, como Maquiavel, que fez uma ode à mentira política e deixou nas entrelinhas um total desprezo à religião que não podia ser dito em voz alta –  e ainda hoje ecoa na criação de personagens políticos totalmente falsos em suas fés e convicções.

O livro é rápido e agrada mesmo quando trata de obras ou autores que você não esteja familiarizado. Dos 15 livros da lista, li cerca de metade deles e alguns autores eu só conhecia das conversas de amigos mais versados em assuntos como aborto, eugenia e feminismo. Enumerar os argumentos usados para a escolha de cada um deles tornaria esta resenha gigantesca e tiraria a surpresa de quem vier a comprar o livro, razão pela qual não seguirei elencando o conjunto de maldades perpetradas por cada uma das obras analisadas.

Como disse Benjamin Wiker após a publicação, “talvez a melhor forma de descobrir a verdade seja estudando os maiores erros”. O “10 Livros” faz isso muito bem e por isso vale a leitura do início ao fim.

 

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